Nunca tive o sonho cor de rosa de ser mãe. Conheço gente que desde que nasce já se imagina mãe, mas eu não. Nem mesmo brincar de bonecas era meu forte. Sempre amei crianças, mas ainda assim confesso que gostava do momento em que as devolvia para as suas mães. Não ter aquela "responsabilidade" de cuidar me deixava muito tranquila.
Apesar das cobranças externas - quando se gosta de crianças, se está num relacionamento sério há mais de dez anos, as cobranças vem, e muitas - , as pessoas sabiam da minha posição. A nossa posição - minha e do meu marido.
Se não pensávamos em ser pais? Sim, às vezes conversávamos sobre isso, mas parecia algo tão distante e fora da nossa realidade que geralmente os papos não duravam muito tempo. Nunca tive dúvidas de que poderíamos ser bons pais, mas não sabíamos se queríamos ser.
Numa quinta-feira à noite, tudo mudou. Um teste, dois riscos, e nossas preocupações que oscilavam entre viagens, trocas de carro e apartamento, foram revolucionadas.
Por medo, chorei. Chorei muito. Um descuido nos levou até ali. Nós, que sempre fomos tão planejados, tão cuidadosos, estávamos caindo de paraquedas numa nova realidade.
Grávida.
Estaria mentindo se dissesse que me
senti mãe naquele momento. Não. Na verdade, não saberia dizer quando me senti
mãe - e asseguro que foi só depois do parto. Mas a ficha de que sim, havia um
coração além do meu batendo dentro do meu corpo, só caiu no dia do primeiro
ultrassom. Que loucura ver um ser tão pequeno, com braços e pernas que se
movimentavam freneticamente. Três centímetros e já daquele jeito. Não chorei.
Mas ali senti o coração na boca. Ali sim, vi a mudança que estava por vir.
Não, não acho que toda mulher precise
ser mãe. Não acho que ser mãe me faz melhor do que outras mulheres, acho bem
repugnante essa ideia, inclusive. Mas ser mãe tem se mostrado uma experiência
incrível.
Desde que minha filha nasceu, tive que
aprender a colocar os desejos de outro à frente dos meus. Sim, porque é isso
que se faz quando se tem um bebê. Não dá pra simplesmente eu pensar "hoje
vou dormir até mais tarde", "vou tomar um banho de meia hora
agora", "vou ficar na rua até meia-noite". Não, não dá. E às
vezes isso pode ser muito difícil de se entender.
Ser mãe me faz testar os meus limites.
De resistência. De paciência. De persistência. Meus limites físicos. Minha sanidade
mental. Ser mãe tem me levado a achar graça do comum, do cotidiano, do simples,
do pequeno. Ser mãe me fez ter uma empatia que nunca imaginei.
Quando se tem contato diário com uma
criança, quando se vê seu desabrochar, algo de fantástico acontece. Em pouco
tempo, um bebê passa de um ser deitado para um ser que senta. De um ser que
senta, para um ser que engatinha. De alguém que engatinha para alguém que fica
em pé... e, de repente, anda! Isso não é fantástico? Não é possível que não se
consiga notar o quão sensacional é isso.
Se a maternidade veio pra mim por
acaso, ela não vem acontecendo por acaso. Ser mãe tem me mostrado que devo
ouvir meu sexto sentido, meu instinto. Mas que também devo ler, ler, ler.
Estudar para entender muitas coisas... de saltos de crescimento e picos de
desenvolvimento, de alimentação e saúde, de brincadeira e aprendizagem. Ser mãe
é sentir. Mas também é refletir, é repensar, é errar e acertar, o tempo todo.
Não compactuo com a ideia de que a mãe
é um ser imaculado, a guerreira incansável neste mundo de meu Deus. E das
razões de ser mãe? Gosto de pensar que me tornei mãe, assim, “sem saber, sem
querer”, para que pudesse me reavaliar, rever meus conceitos, meus projetos,
meus planos. Me revisitar. Me modificar. Me retificar. Me ratificar.
Da perfeição materna tratada nesse
mundo de Poliana para a imperfeição diária, de quem é gente, de carne e osso,
com alma sonhadora e sangue quente correndo nas veias, que sabe que ninguém é
infalível, nem mesmo as mães – ou seria principalmente
elas?
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