quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Das razões de ser mãe

Nunca tive o sonho cor de rosa de ser mãe. Conheço gente que desde que nasce já se imagina mãe, mas eu não. Nem mesmo brincar de bonecas era meu forte. 
Sempre amei crianças, mas ainda assim confesso que gostava do momento em que as devolvia para as suas mães. Não ter aquela "responsabilidade" de cuidar me deixava muito tranquila. 
Apesar das cobranças externas - quando se gosta de crianças, se está num relacionamento sério há mais de dez anos, as cobranças vem, e muitas - , as pessoas sabiam da minha posição. A nossa posição - minha e do meu marido.
Se não pensávamos em ser pais? Sim, às vezes conversávamos sobre isso, mas parecia algo tão distante e fora da nossa realidade que geralmente os papos não duravam muito tempo. Nunca tive dúvidas de que poderíamos ser bons pais, mas não sabíamos se queríamos ser.
Numa quinta-feira à noite, tudo mudou. Um teste, dois riscos, e nossas preocupações que oscilavam entre viagens, trocas de carro e apartamento, foram revolucionadas.
Por medo, chorei. Chorei muito. Um descuido nos levou até ali. Nós, que sempre fomos tão planejados, tão cuidadosos, estávamos caindo de paraquedas numa nova realidade.
Grávida.
Estaria mentindo se dissesse que me senti mãe naquele momento. Não. Na verdade, não saberia dizer quando me senti mãe - e asseguro que foi só depois do parto. Mas a ficha de que sim, havia um coração além do meu batendo dentro do meu corpo, só caiu no dia do primeiro ultrassom. Que loucura ver um ser tão pequeno, com braços e pernas que se movimentavam freneticamente. Três centímetros e já daquele jeito. Não chorei. Mas ali senti o coração na boca. Ali sim, vi a mudança que estava por vir.
Não, não acho que toda mulher precise ser mãe. Não acho que ser mãe me faz melhor do que outras mulheres, acho bem repugnante essa ideia, inclusive. Mas ser mãe tem se mostrado uma experiência incrível.
Desde que minha filha nasceu, tive que aprender a colocar os desejos de outro à frente dos meus. Sim, porque é isso que se faz quando se tem um bebê. Não dá pra simplesmente eu pensar "hoje vou dormir até mais tarde", "vou tomar um banho de meia hora agora", "vou ficar na rua até meia-noite". Não, não dá. E às vezes isso pode ser muito difícil de se entender.
Ser mãe me faz testar os meus limites. De resistência. De paciência. De persistência. Meus limites físicos. Minha sanidade mental. Ser mãe tem me levado a achar graça do comum, do cotidiano, do simples, do pequeno. Ser mãe me fez ter uma empatia que nunca imaginei.
Quando se tem contato diário com uma criança, quando se vê seu desabrochar, algo de fantástico acontece. Em pouco tempo, um bebê passa de um ser deitado para um ser que senta. De um ser que senta, para um ser que engatinha. De alguém que engatinha para alguém que fica em pé... e, de repente, anda! Isso não é fantástico? Não é possível que não se consiga notar o quão sensacional é isso.
Se a maternidade veio pra mim por acaso, ela não vem acontecendo por acaso. Ser mãe tem me mostrado que devo ouvir meu sexto sentido, meu instinto. Mas que também devo ler, ler, ler. Estudar para entender muitas coisas... de saltos de crescimento e picos de desenvolvimento, de alimentação e saúde, de brincadeira e aprendizagem. Ser mãe é sentir. Mas também é refletir, é repensar, é errar e acertar, o tempo todo.
Não compactuo com a ideia de que a mãe é um ser imaculado, a guerreira incansável neste mundo de meu Deus. E das razões de ser mãe? Gosto de pensar que me tornei mãe, assim, “sem saber, sem querer”, para que pudesse me reavaliar, rever meus conceitos, meus projetos, meus planos. Me revisitar. Me modificar. Me retificar. Me ratificar.
Da perfeição materna tratada nesse mundo de Poliana para a imperfeição diária, de quem é gente, de carne e osso, com alma sonhadora e sangue quente correndo nas veias, que sabe que ninguém é infalível, nem mesmo as mães – ou seria principalmente elas?

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