Minha história como mãe começou bem
antes daquela manhã ensolarada de sábado, quando dois riscos num teste de
farmácia anunciavam a chegada do meu Pedro.
Era uma segunda-feira murcha de um
final de férias. A casa estava uma bagunça, nós havíamos chegado há pouco tempo
de uma grande viagem e havia muito a ser colocado no lugar, sem contar o caos
normal das segundas aqui em casa, dia oficial da limpeza. Há algumas semanas eu vinha sentindo uma
cólica insistente, mas nada acontecia no Reino da Dinamarca além dela. Num
estalo besta, desses que a gente pensa sem pensar, pedi pro meu marido ir até a
farmácia comprar um teste de gravidez. Eu estava sem tomar meu remédio já há
alguns meses, mas a ideia de estar grávida era absurdamente ridícula na minha
cabeça, e até hoje eu não entendo o porquê.
Eu nunca tive o sonho de ser mãe.
Quando era mais nova, muitas das minhas amigas passavam os dias sonhando e
idealizando seus maridos e filhos, escolhendo nomes, imaginando um futuro
baseado na santa família, com gato, cachorro e papagaio. Pra mim, isso era pura
idiotice. Eu vinha de uma família de pais separados, o que muito contribuiu pra
eu não acreditar nessa instituição como algo sólido ou fonte de algum tipo de
felicidade.
Essa ideia de ser a “sem família” se
tornou cada vez mais consolidada ao longo da minha adolescência. Eu queria
namorar, trabalhar, ter muito dinheiro, viajar, ser do mundo. Mas a vida tira
uma onda absurda da nossa cara, e então eu conheci um cara. Esse cara, de cara
qualquer, virou meu namorado, e depois meu marido. Nascia aí minha família, que
com o tempo e a vontade, deixou de ser uma dupla de dois.
Teste comprado, e, cinco minutos
depois de algum malabarismo pra fazer xixi num micro copinho, dois traços anunciavam
que eu seria mãe. Seria? Foram dois meses de pura afobação entre consultas
médicas, exames de sangue, ultrassonografia, postagens escalafobéticas nas
redes sociais contando a novidade e um imprevisto, daqueles que a gente sabe
que acontece de monte, mas nunca com a gente. Eu perdi o bebê. Perdi o bebê,
perdi o chão, perdi a sanidade.
Foram meses de luta pra aceitar,
compreender e aprender com aquilo tudo. Meses em que me questionei por tudo,
recapitulei tudo e não entendi nada. Não foi fácil passar por isso, foi
dolorido, dilacerante, mas eu sobrevivi. Depois de seis meses, eu engravidei
novamente. Achei que uma nova gestação tiraria de mim toda dor e medo da
experiência anterior, mas não foi o que aconteceu. Estar grávida era uma dádiva
pavorosa.
Minha gravidez inteira foi pautada
num medo tão absurdo e sufocante que, por muito tempo, respirar fundo estava
fora de cogitação. Eu parei de trabalhar, parei de fazer esforço, parei de
comer coisas que pudessem me fazer mal ou ao bebê, parei de frequentar lugares
que havia estado (e feliz) na primeira gestação, eu parei a vida. Parei e
gestei. Nesse tempo, procurei o máximo de informações sobre o desenvolvimento
dos bebês no útero. Procurei outra médica, me inscrevi em sites que enviavam
boletins semanais, assisti a programas de televisão sobre gestação e
nascimentos. Foram nove meses levando minha gestação de forma calma e ingênua.
Ingênua até demais. Eu queria ter um parto normal, e na minha santa cabeça de
gente que acredita em partos de novela e pôsteres de campanha de amamentação,
tudo aconteceria como a Rede Globo propaga. Eu entraria em trabalho de parto e
ligaria para a minha médica, que me atenderia feliz e contente. Iria para o
hospital, onde, mesmo gritando horrores, seria bem atendida pelas enfermeiras
que, de forma natural e humana, entenderiam minha dor e ansiedade e me
carregariam nos braços como uma deusa parideira. Minha médica seguraria a minha
mão por quantas horas fossem necessárias, até que, rodeada de pessoas
atenciosas, calmas e com um largo sorriso, eu teria meu filho e todos nós
ficaríamos felizes. Depois de nascer ele me seria entregue e se esbanjaria nos
meus seios fartos de leite. Seios esses que ele saberia exatamente como
abocanhar pra se alimentar.
Eu não li nada específico sobre
partos ou amamentação durante a gravidez. Pra não dizer que não li nada, li os
textos superficiais que me foram enviados e que, de tão superficiais,
reforçavam minha ideia romântica do que seria o nascimento do meu filho. Ninguém
me disse que eu precisava me preparar para o parto normal ou que a normalidade
do lance de parir atendia por Dona Cesariana. Ninguém me disse que era preciso fazer
exercícios, engordar pouco ou procurar um médico milagroso que enxergasse no
parto normal algo realmente normal. Por nove meses a minha visão conto de fadas
sobre essa via de nascimento foi sutil e delicadamente minada. A cada consulta,
a cada conversa com mães que me contavam absurdos sobre o nascimento de seus
filhos, a cada notícia que eu lia sobre mulheres que haviam sido negligenciadas
e perdido seus bebês por ficarem longos períodos em trabalho de parto (nos meus
últimos meses de gestação foram duas). Isso tudo me fez repensar se aquilo era
pra mim. Não, eu não busquei informações que me transformassem numa grávida empoderada,
na verdade eu nem sabia o que era isso. Eu acreditei nas histórias esdrúxulas
que me contaram e marquei minha cesárea. Eletiva, marcadinha na agenda, com
horário reservado. Marquei a cesárea que tiraria de mim a responsabilidade de
trazer o Pedro ao mundo. Tirei das minhas costas o peso de fazer algo que eu
não sabia se seria capaz porque o mundo inteiro me mostrava que parir era algo quase
impossível. (Polícia das mães, essa é a deixa pros julgamentos e o
apedrejamento. Vamos lá, falem, esbravejem, me chamem de covarde, eu não me
importo e não me abalo). Se eu tivesse sido informada sobre os números, índices
e procedimentos dos dois tipos de parto, se tivessem me contato sobre o pós
parto, os prós e contras, minha decisão seria outra? Se minha opção, ao invés
de ridicularizada, tivesse sido motivada, as coisas seriam diferentes? Eu não
sei. Eu me arrependo? Não. Não me
arrependo nem me culpo. Parto humanizado foi algo que eu conheci tempos depois
do Pedro nascido, pra mim, parir era naturalmente humanizado, normal mesmo, como
o nome diz, mas ninguém me contou que não. Ninguém me contou que as
possibilidades de complicações em cesáreas são três vezes maiores do que em
partos normais, bem como não me disseram que eu ficaria amarrada enquanto meu
filho estivesse nascendo ou que eu demoraria horas, muitas horas, pra poder
pegar ele no colo. Ninguém me contou tanta coisa!
Ninguém me disse que a amamentação
prazerosa das campanhas pró amamentação é como bilhete premiado da Mega da
Virada, aquele que você sabe que alguém ganha, mas nunca conheceu um sujeito de
sorte pra tanto. Ninguém meeeesmo me contou que amamentar era difícil. Ninguém comentou
que no começo machucava pra caramba e que o leite tinha que ser ofertado sempre
que solicitado pelo bebê. Ninguém. Nem o boletim semanal, nem a médica, nem os
programas de televisão, nem os sites de maternidade propaganda de margarina.
Esqueceram de me dizer que ser mãe
era difícil pra cacete, que eu ia me desesperar, chorar, desencontrar,
surpreender (tudo ao mesmo tempo). Esqueceram de me falar que o primeiro mês do
bebê é um teste de sanidade, que dá vontade de jogar a criança pela janela, que
dá vontade de jogar a própria mãe, a sogra, o marido, que dá vontade de se jogar
pela janela. Eu apanhei muito pela minha falta de conhecimento. Apanhei por não
ter quem me dissesse como as coisas seriam. Sofri pela falta de sinceridade do
mundo que vende a maternidade como algo encantador, belo, perfeito. Penei por
não terem me dito que parto normal era anormal, que mulher feliz amamentando só
se fosse criança calejada de peito. Que fique claro, não tiro minha culpa de
não ter procurado informação por conta própria, mas esse floreio em torno da
maternidade impacta demais o lance real. Impacta a ponto de criar mães
frustradas que se perguntam o tempo todo “o problema sou eu?”. Não mãe, não é
você. Ser mãe é difícil. Muito difícil. É pra você, pra mim, pra qualquer uma. Pena
que não te contaram antes. Pena que não me contaram antes.