quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Das coisas que não me contaram

Minha história como mãe começou bem antes daquela manhã ensolarada de sábado, quando dois riscos num teste de farmácia anunciavam a chegada do meu Pedro.

Era uma segunda-feira murcha de um final de férias. A casa estava uma bagunça, nós havíamos chegado há pouco tempo de uma grande viagem e havia muito a ser colocado no lugar, sem contar o caos normal das segundas aqui em casa, dia oficial da limpeza.  Há algumas semanas eu vinha sentindo uma cólica insistente, mas nada acontecia no Reino da Dinamarca além dela. Num estalo besta, desses que a gente pensa sem pensar, pedi pro meu marido ir até a farmácia comprar um teste de gravidez. Eu estava sem tomar meu remédio já há alguns meses, mas a ideia de estar grávida era absurdamente ridícula na minha cabeça, e até hoje eu não entendo o porquê.
Eu nunca tive o sonho de ser mãe. Quando era mais nova, muitas das minhas amigas passavam os dias sonhando e idealizando seus maridos e filhos, escolhendo nomes, imaginando um futuro baseado na santa família, com gato, cachorro e papagaio. Pra mim, isso era pura idiotice. Eu vinha de uma família de pais separados, o que muito contribuiu pra eu não acreditar nessa instituição como algo sólido ou fonte de algum tipo de felicidade.
Essa ideia de ser a “sem família” se tornou cada vez mais consolidada ao longo da minha adolescência. Eu queria namorar, trabalhar, ter muito dinheiro, viajar, ser do mundo. Mas a vida tira uma onda absurda da nossa cara, e então eu conheci um cara. Esse cara, de cara qualquer, virou meu namorado, e depois meu marido. Nascia aí minha família, que com o tempo e a vontade, deixou de ser uma dupla de dois.
Teste comprado, e, cinco minutos depois de algum malabarismo pra fazer xixi num micro copinho, dois traços anunciavam que eu seria mãe. Seria? Foram dois meses de pura afobação entre consultas médicas, exames de sangue, ultrassonografia, postagens escalafobéticas nas redes sociais contando a novidade e um imprevisto, daqueles que a gente sabe que acontece de monte, mas nunca com a gente. Eu perdi o bebê. Perdi o bebê, perdi o chão, perdi a sanidade.
Foram meses de luta pra aceitar, compreender e aprender com aquilo tudo. Meses em que me questionei por tudo, recapitulei tudo e não entendi nada. Não foi fácil passar por isso, foi dolorido, dilacerante, mas eu sobrevivi. Depois de seis meses, eu engravidei novamente. Achei que uma nova gestação tiraria de mim toda dor e medo da experiência anterior, mas não foi o que aconteceu. Estar grávida era uma dádiva pavorosa.
Minha gravidez inteira foi pautada num medo tão absurdo e sufocante que, por muito tempo, respirar fundo estava fora de cogitação. Eu parei de trabalhar, parei de fazer esforço, parei de comer coisas que pudessem me fazer mal ou ao bebê, parei de frequentar lugares que havia estado (e feliz) na primeira gestação, eu parei a vida. Parei e gestei. Nesse tempo, procurei o máximo de informações sobre o desenvolvimento dos bebês no útero. Procurei outra médica, me inscrevi em sites que enviavam boletins semanais, assisti a programas de televisão sobre gestação e nascimentos. Foram nove meses levando minha gestação de forma calma e ingênua. Ingênua até demais. Eu queria ter um parto normal, e na minha santa cabeça de gente que acredita em partos de novela e pôsteres de campanha de amamentação, tudo aconteceria como a Rede Globo propaga. Eu entraria em trabalho de parto e ligaria para a minha médica, que me atenderia feliz e contente. Iria para o hospital, onde, mesmo gritando horrores, seria bem atendida pelas enfermeiras que, de forma natural e humana, entenderiam minha dor e ansiedade e me carregariam nos braços como uma deusa parideira. Minha médica seguraria a minha mão por quantas horas fossem necessárias, até que, rodeada de pessoas atenciosas, calmas e com um largo sorriso, eu teria meu filho e todos nós ficaríamos felizes. Depois de nascer ele me seria entregue e se esbanjaria nos meus seios fartos de leite. Seios esses que ele saberia exatamente como abocanhar pra se alimentar.
Eu não li nada específico sobre partos ou amamentação durante a gravidez. Pra não dizer que não li nada, li os textos superficiais que me foram enviados e que, de tão superficiais, reforçavam minha ideia romântica do que seria o nascimento do meu filho. Ninguém me disse que eu precisava me preparar para o parto normal ou que a normalidade do lance de parir atendia por Dona Cesariana. Ninguém me disse que era preciso fazer exercícios, engordar pouco ou procurar um médico milagroso que enxergasse no parto normal algo realmente normal. Por nove meses a minha visão conto de fadas sobre essa via de nascimento foi sutil e delicadamente minada. A cada consulta, a cada conversa com mães que me contavam absurdos sobre o nascimento de seus filhos, a cada notícia que eu lia sobre mulheres que haviam sido negligenciadas e perdido seus bebês por ficarem longos períodos em trabalho de parto (nos meus últimos meses de gestação foram duas). Isso tudo me fez repensar se aquilo era pra mim. Não, eu não busquei informações que me transformassem numa grávida empoderada, na verdade eu nem sabia o que era isso. Eu acreditei nas histórias esdrúxulas que me contaram e marquei minha cesárea. Eletiva, marcadinha na agenda, com horário reservado. Marquei a cesárea que tiraria de mim a responsabilidade de trazer o Pedro ao mundo. Tirei das minhas costas o peso de fazer algo que eu não sabia se seria capaz porque o mundo inteiro me mostrava que parir era algo quase impossível. (Polícia das mães, essa é a deixa pros julgamentos e o apedrejamento. Vamos lá, falem, esbravejem, me chamem de covarde, eu não me importo e não me abalo). Se eu tivesse sido informada sobre os números, índices e procedimentos dos dois tipos de parto, se tivessem me contato sobre o pós parto, os prós e contras, minha decisão seria outra? Se minha opção, ao invés de ridicularizada, tivesse sido motivada, as coisas seriam diferentes? Eu não sei.  Eu me arrependo? Não. Não me arrependo nem me culpo. Parto humanizado foi algo que eu conheci tempos depois do Pedro nascido, pra mim, parir era naturalmente humanizado, normal mesmo, como o nome diz, mas ninguém me contou que não. Ninguém me contou que as possibilidades de complicações em cesáreas são três vezes maiores do que em partos normais, bem como não me disseram que eu ficaria amarrada enquanto meu filho estivesse nascendo ou que eu demoraria horas, muitas horas, pra poder pegar ele no colo. Ninguém me contou tanta coisa!
Ninguém me disse que a amamentação prazerosa das campanhas pró amamentação é como bilhete premiado da Mega da Virada, aquele que você sabe que alguém ganha, mas nunca conheceu um sujeito de sorte pra tanto. Ninguém meeeesmo me contou que amamentar era difícil. Ninguém comentou que no começo machucava pra caramba e que o leite tinha que ser ofertado sempre que solicitado pelo bebê. Ninguém. Nem o boletim semanal, nem a médica, nem os programas de televisão, nem os sites de maternidade propaganda de margarina.

Esqueceram de me dizer que ser mãe era difícil pra cacete, que eu ia me desesperar, chorar, desencontrar, surpreender (tudo ao mesmo tempo). Esqueceram de me falar que o primeiro mês do bebê é um teste de sanidade, que dá vontade de jogar a criança pela janela, que dá vontade de jogar a própria mãe, a sogra, o marido, que dá vontade de se jogar pela janela. Eu apanhei muito pela minha falta de conhecimento. Apanhei por não ter quem me dissesse como as coisas seriam. Sofri pela falta de sinceridade do mundo que vende a maternidade como algo encantador, belo, perfeito. Penei por não terem me dito que parto normal era anormal, que mulher feliz amamentando só se fosse criança calejada de peito. Que fique claro, não tiro minha culpa de não ter procurado informação por conta própria, mas esse floreio em torno da maternidade impacta demais o lance real. Impacta a ponto de criar mães frustradas que se perguntam o tempo todo “o problema sou eu?”. Não mãe, não é você. Ser mãe é difícil. Muito difícil. É pra você, pra mim, pra qualquer uma. Pena que não te contaram antes. Pena que não me contaram antes. 

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