quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O que 2014 me ensinou

Sou daquelas pessoas que adora uma lista de resoluções “pro ano que chega”. Pode ser num caderno, agenda ou caderneta, entra ano, sai ano, nos últimos dias de dezembro desenterro as listas passadas, repenso as coisas que ficaram por fazer nos 364 dias do ano que passaram e rabisco algumas metas. Nada muito pessoal, coisas da casa, coisas pra mim, sem muita profundidade, sem muita mudança. Também sou do tipo de gente que raramente cumpre essas resoluções. Dar um tapa na decoração do quarto e ajeitar o escritório sempre ficam por fazer. Na vida corrida do trabalho, da conta pra pagar, do aproveitar o que se pode, esse tipo de coisa fica pra trás, em segundo plano, pra lista do ano que vem. 
Em 2013 não fiz lista. No final do ano, Pedro tinha apenas um mês e meio, então minhas metas eram dormir (quando possível) e amamentar. Entrar um ano sem a famigerada listinha não me fez muita falta real, afinal, nem um terço das coisas que eu escrevia realmente rolavam, mas foi algo relevante, significativo.  Em 2014, a maternidade deu uma rasteira nesse meu hábito.  Ela deu também uma voadora na minha vida planejada. Planejamento e maternidade se mostraram opostos, daqueles que não se atraem. 
Pensando em listas e planos, 2014 foi um ano morno. Eu não planejei, pesquisei, pensei, repensei, analisei, ou observei a vida. Eu vivi a vida, de forma intensa, louca, com sono, cheirando a leite, descabelada, acima do peso, perdida, achada, chorando, rindo, embalada em muito choro, mas, acima de tudo, transbordando de amor. 2014 foi o ano que mais me ensinou. Eu aprendi a dar risada, a ficar de bruços, a rolar, aprendi a sentar e a pegar as coisas com dedinhos de pinça. Descobri o sabor dos alimentos, aprendi a engatinhar, a andar, a gritar, a apontar pras coisas, aprendi a me expressar. Eu aprendi tantas coisas! Aprendi a comemorar cada dia de vida e cada mês. Descobri o sabor da felicidade nas pequenas (bem pequenininhas) coisas. Aprendi a me doar, de corpo, alma, cabeça, de tudo. Em tempo integral, sem retorno financeiro, sem esperar nada em troca. Aprendi com cada aprendizado do meu filho. Aprendi com cada obstáculo meu. Fiz escolhas, deixei muita, muita coisa pra trás, deixei muita (muita!) coisa por fazer. Deixei e vivi. Vivi meu filho, vivi minha família. Sobrevivi.
Hoje é dia de fazer lista. Até tenho na cabeça algumas auto-promessas pra 2015, mas coisa pouca. Pra esse ano que tá chegando, eu quero é menos coisas. Quero me importar menos com o que/quem não é importante, quero menos sentimento ruim, quero esperar menos das pessoas, quero menos disputa, menos intolerância, menos frustração.

Que meu ano seja cheio de muito beijo babado, abraço apertado, cheiro de leite, barulho de risada, bagunça de brinquedo pela casa. Que tenha muitos dias descabelados, sem dente escovado, com choro, colo, manha, com “manhêêêê”. Quero um ano abarrotado de filho, marido, mãe, irmãos, família, amigos, doação, amor, amor, amor. Amor intenso, sem planejamento, sem data, sem prazo de validade. Amor daqueles que não se coloca em listas.  

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Crônica de um Natal

Era um homem comum. Desses que tem uma família comum, um emprego comum, uma vida comum. Sem muito luxo, nem pompa e circunstância. Trabalhava arduamente, dia após dia. No domingo, reunia a família em torno da mesa para o almoço semanal. Era a rotina. 
É engraçado como às vezes temos pesar de falar em rotina. Nem toda rotina é amarga, entristece. Um pouco de rotina faz bem, é até necessária. O almoço familiar dominical era esse tipo de rotina imprescindível. Começou quando os rebentos ainda eram pequenos e tornou-se hábito. Os filhos, já crescidos, vinham para compartilhar desse momento. E assim o homem vivia seus dias, trabalhando rotineiramente, alimentando-se rotineiramente, reunindo sua família rotineiramente.
Porém, algo estalava dentro de seu coração. Havia uma voz que falava ali dentro e pedia, encarecidamente, que algo de novo acontecesse. Que um novo hábito fosse incorporado àquela vida que levava.
Um dia, o homem teve um sonho. Não era desses sonhos premonitórios que às vezes as pessoas têm. Era um sonho de regressão: o homem voltou a sua infância. Naquele sonho, ele, já homem feito, estava de fora, como espectador, observando a si próprio quando criança.
Era noite de Natal. O homem e seus seis irmãos, sem muitas expectativas de presentes de Papai Noel, estavam ao redor da mesa, aguardando a ceia simples, mas feita com amor. De repente, batem à porta. Eis que surge uma mulher, vestida em roupa vermelha e carregando uma sacola de presentes. Aquelas sete crianças mal podiam conter a alegria! Não é que há um Papai Noel para os mais pobres? E riam, e gritavam, e corriam... e rasgavam os papéis e pegavam seus presentes. Que alegria, como estavam felizes.
Então ele acordou. Acordou e continuou com aquela lembrança viva na mente.
Decidiu que naquele Natal faria diferente. Foi até uma loja, dessas que vendem artigos a preço baixo. Comprou uma roupa de Papai Noel, bem simples. Com a roupa embrulhada na sacola, seu coração se enchia de alegria e felicidade. Chegou em casa, guardou o pacote bem guardado e voltou a sua vida, contando os dias para a noite de Natal.
O dia 24 de dezembro finalmente amanhece. O homem salta da cama, na expectativa daquela noite. Vai para o trabalho, mas o pensamento está longe, longe... No final da tarde, volta para casa, toma um banho demorado. Vai para o quarto e pega cuidadosamente o pacote.
O homem se arruma. Sua esposa o ajuda a colocar a barba e o gorro. Arranjam um sino. Pegam o presente e colocam em um saco. Com o coração acelerado, “Papai Noel” segue seu rumo.
Chega a uma casa simples. Toca a campainha. Uma senhora, com andar vagaroso, o atende. “É ela! É ela!” Mal pode conter a emoção. Era ela: a mulher que proporcionou tantos bons Natais em sua infância agora estava ali, diante dele. Conversaram e não contiveram o choro, que veio solto e intenso. Estava ali a história de sua infância revivida. Estava ali uma nova rotina.
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Dez anos se passaram. A rotina perdura e novas atividades foram incorporadas a ela, como a visita a outras casas especiais e o passeio, antes da meia-noite, pelas ruas de seu bairro.
O homem, hoje avô de duas pequenas crianças, vê nos olhos de seus netos a felicidade e a esperança que habita em toda criança.
- Vovô, hoje é dia de Papai Noel! Hoje é dia de Papai Noel! – diz, eufórico, o neto mais velho, do alto de seus dois anos.
O homem sorri. Sente, mais uma vez, o coração estalar. E não é por pequenos estalos que se vive?
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Esta é uma história inspirada na minha própria história.
Para mim, Natal vai muito além de Papai Noel. Natal é o momento de repensar o amor, de refletir sobre nossas ações e o quanto estamos considerando a máxima cristã “amai-vos uns aos outros”. Natal é família, é estar presente, é abraço, é oração.

Ainda não sei como tratarei o assunto “Papai Noel” com minha pequena cria, de apenas nove meses. Porém, sei que o principal ela já aprendeu com o mestre Tom Jobim desde que estava em minha barriga: “fundamental é mesmo o amor”.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Das razões de ser mãe

Nunca tive o sonho cor de rosa de ser mãe. Conheço gente que desde que nasce já se imagina mãe, mas eu não. Nem mesmo brincar de bonecas era meu forte. 
Sempre amei crianças, mas ainda assim confesso que gostava do momento em que as devolvia para as suas mães. Não ter aquela "responsabilidade" de cuidar me deixava muito tranquila. 
Apesar das cobranças externas - quando se gosta de crianças, se está num relacionamento sério há mais de dez anos, as cobranças vem, e muitas - , as pessoas sabiam da minha posição. A nossa posição - minha e do meu marido.
Se não pensávamos em ser pais? Sim, às vezes conversávamos sobre isso, mas parecia algo tão distante e fora da nossa realidade que geralmente os papos não duravam muito tempo. Nunca tive dúvidas de que poderíamos ser bons pais, mas não sabíamos se queríamos ser.
Numa quinta-feira à noite, tudo mudou. Um teste, dois riscos, e nossas preocupações que oscilavam entre viagens, trocas de carro e apartamento, foram revolucionadas.
Por medo, chorei. Chorei muito. Um descuido nos levou até ali. Nós, que sempre fomos tão planejados, tão cuidadosos, estávamos caindo de paraquedas numa nova realidade.
Grávida.
Estaria mentindo se dissesse que me senti mãe naquele momento. Não. Na verdade, não saberia dizer quando me senti mãe - e asseguro que foi só depois do parto. Mas a ficha de que sim, havia um coração além do meu batendo dentro do meu corpo, só caiu no dia do primeiro ultrassom. Que loucura ver um ser tão pequeno, com braços e pernas que se movimentavam freneticamente. Três centímetros e já daquele jeito. Não chorei. Mas ali senti o coração na boca. Ali sim, vi a mudança que estava por vir.
Não, não acho que toda mulher precise ser mãe. Não acho que ser mãe me faz melhor do que outras mulheres, acho bem repugnante essa ideia, inclusive. Mas ser mãe tem se mostrado uma experiência incrível.
Desde que minha filha nasceu, tive que aprender a colocar os desejos de outro à frente dos meus. Sim, porque é isso que se faz quando se tem um bebê. Não dá pra simplesmente eu pensar "hoje vou dormir até mais tarde", "vou tomar um banho de meia hora agora", "vou ficar na rua até meia-noite". Não, não dá. E às vezes isso pode ser muito difícil de se entender.
Ser mãe me faz testar os meus limites. De resistência. De paciência. De persistência. Meus limites físicos. Minha sanidade mental. Ser mãe tem me levado a achar graça do comum, do cotidiano, do simples, do pequeno. Ser mãe me fez ter uma empatia que nunca imaginei.
Quando se tem contato diário com uma criança, quando se vê seu desabrochar, algo de fantástico acontece. Em pouco tempo, um bebê passa de um ser deitado para um ser que senta. De um ser que senta, para um ser que engatinha. De alguém que engatinha para alguém que fica em pé... e, de repente, anda! Isso não é fantástico? Não é possível que não se consiga notar o quão sensacional é isso.
Se a maternidade veio pra mim por acaso, ela não vem acontecendo por acaso. Ser mãe tem me mostrado que devo ouvir meu sexto sentido, meu instinto. Mas que também devo ler, ler, ler. Estudar para entender muitas coisas... de saltos de crescimento e picos de desenvolvimento, de alimentação e saúde, de brincadeira e aprendizagem. Ser mãe é sentir. Mas também é refletir, é repensar, é errar e acertar, o tempo todo.
Não compactuo com a ideia de que a mãe é um ser imaculado, a guerreira incansável neste mundo de meu Deus. E das razões de ser mãe? Gosto de pensar que me tornei mãe, assim, “sem saber, sem querer”, para que pudesse me reavaliar, rever meus conceitos, meus projetos, meus planos. Me revisitar. Me modificar. Me retificar. Me ratificar.
Da perfeição materna tratada nesse mundo de Poliana para a imperfeição diária, de quem é gente, de carne e osso, com alma sonhadora e sangue quente correndo nas veias, que sabe que ninguém é infalível, nem mesmo as mães – ou seria principalmente elas?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Das coisas que não me contaram

Minha história como mãe começou bem antes daquela manhã ensolarada de sábado, quando dois riscos num teste de farmácia anunciavam a chegada do meu Pedro.

Era uma segunda-feira murcha de um final de férias. A casa estava uma bagunça, nós havíamos chegado há pouco tempo de uma grande viagem e havia muito a ser colocado no lugar, sem contar o caos normal das segundas aqui em casa, dia oficial da limpeza.  Há algumas semanas eu vinha sentindo uma cólica insistente, mas nada acontecia no Reino da Dinamarca além dela. Num estalo besta, desses que a gente pensa sem pensar, pedi pro meu marido ir até a farmácia comprar um teste de gravidez. Eu estava sem tomar meu remédio já há alguns meses, mas a ideia de estar grávida era absurdamente ridícula na minha cabeça, e até hoje eu não entendo o porquê.
Eu nunca tive o sonho de ser mãe. Quando era mais nova, muitas das minhas amigas passavam os dias sonhando e idealizando seus maridos e filhos, escolhendo nomes, imaginando um futuro baseado na santa família, com gato, cachorro e papagaio. Pra mim, isso era pura idiotice. Eu vinha de uma família de pais separados, o que muito contribuiu pra eu não acreditar nessa instituição como algo sólido ou fonte de algum tipo de felicidade.
Essa ideia de ser a “sem família” se tornou cada vez mais consolidada ao longo da minha adolescência. Eu queria namorar, trabalhar, ter muito dinheiro, viajar, ser do mundo. Mas a vida tira uma onda absurda da nossa cara, e então eu conheci um cara. Esse cara, de cara qualquer, virou meu namorado, e depois meu marido. Nascia aí minha família, que com o tempo e a vontade, deixou de ser uma dupla de dois.
Teste comprado, e, cinco minutos depois de algum malabarismo pra fazer xixi num micro copinho, dois traços anunciavam que eu seria mãe. Seria? Foram dois meses de pura afobação entre consultas médicas, exames de sangue, ultrassonografia, postagens escalafobéticas nas redes sociais contando a novidade e um imprevisto, daqueles que a gente sabe que acontece de monte, mas nunca com a gente. Eu perdi o bebê. Perdi o bebê, perdi o chão, perdi a sanidade.
Foram meses de luta pra aceitar, compreender e aprender com aquilo tudo. Meses em que me questionei por tudo, recapitulei tudo e não entendi nada. Não foi fácil passar por isso, foi dolorido, dilacerante, mas eu sobrevivi. Depois de seis meses, eu engravidei novamente. Achei que uma nova gestação tiraria de mim toda dor e medo da experiência anterior, mas não foi o que aconteceu. Estar grávida era uma dádiva pavorosa.
Minha gravidez inteira foi pautada num medo tão absurdo e sufocante que, por muito tempo, respirar fundo estava fora de cogitação. Eu parei de trabalhar, parei de fazer esforço, parei de comer coisas que pudessem me fazer mal ou ao bebê, parei de frequentar lugares que havia estado (e feliz) na primeira gestação, eu parei a vida. Parei e gestei. Nesse tempo, procurei o máximo de informações sobre o desenvolvimento dos bebês no útero. Procurei outra médica, me inscrevi em sites que enviavam boletins semanais, assisti a programas de televisão sobre gestação e nascimentos. Foram nove meses levando minha gestação de forma calma e ingênua. Ingênua até demais. Eu queria ter um parto normal, e na minha santa cabeça de gente que acredita em partos de novela e pôsteres de campanha de amamentação, tudo aconteceria como a Rede Globo propaga. Eu entraria em trabalho de parto e ligaria para a minha médica, que me atenderia feliz e contente. Iria para o hospital, onde, mesmo gritando horrores, seria bem atendida pelas enfermeiras que, de forma natural e humana, entenderiam minha dor e ansiedade e me carregariam nos braços como uma deusa parideira. Minha médica seguraria a minha mão por quantas horas fossem necessárias, até que, rodeada de pessoas atenciosas, calmas e com um largo sorriso, eu teria meu filho e todos nós ficaríamos felizes. Depois de nascer ele me seria entregue e se esbanjaria nos meus seios fartos de leite. Seios esses que ele saberia exatamente como abocanhar pra se alimentar.
Eu não li nada específico sobre partos ou amamentação durante a gravidez. Pra não dizer que não li nada, li os textos superficiais que me foram enviados e que, de tão superficiais, reforçavam minha ideia romântica do que seria o nascimento do meu filho. Ninguém me disse que eu precisava me preparar para o parto normal ou que a normalidade do lance de parir atendia por Dona Cesariana. Ninguém me disse que era preciso fazer exercícios, engordar pouco ou procurar um médico milagroso que enxergasse no parto normal algo realmente normal. Por nove meses a minha visão conto de fadas sobre essa via de nascimento foi sutil e delicadamente minada. A cada consulta, a cada conversa com mães que me contavam absurdos sobre o nascimento de seus filhos, a cada notícia que eu lia sobre mulheres que haviam sido negligenciadas e perdido seus bebês por ficarem longos períodos em trabalho de parto (nos meus últimos meses de gestação foram duas). Isso tudo me fez repensar se aquilo era pra mim. Não, eu não busquei informações que me transformassem numa grávida empoderada, na verdade eu nem sabia o que era isso. Eu acreditei nas histórias esdrúxulas que me contaram e marquei minha cesárea. Eletiva, marcadinha na agenda, com horário reservado. Marquei a cesárea que tiraria de mim a responsabilidade de trazer o Pedro ao mundo. Tirei das minhas costas o peso de fazer algo que eu não sabia se seria capaz porque o mundo inteiro me mostrava que parir era algo quase impossível. (Polícia das mães, essa é a deixa pros julgamentos e o apedrejamento. Vamos lá, falem, esbravejem, me chamem de covarde, eu não me importo e não me abalo). Se eu tivesse sido informada sobre os números, índices e procedimentos dos dois tipos de parto, se tivessem me contato sobre o pós parto, os prós e contras, minha decisão seria outra? Se minha opção, ao invés de ridicularizada, tivesse sido motivada, as coisas seriam diferentes? Eu não sei.  Eu me arrependo? Não. Não me arrependo nem me culpo. Parto humanizado foi algo que eu conheci tempos depois do Pedro nascido, pra mim, parir era naturalmente humanizado, normal mesmo, como o nome diz, mas ninguém me contou que não. Ninguém me contou que as possibilidades de complicações em cesáreas são três vezes maiores do que em partos normais, bem como não me disseram que eu ficaria amarrada enquanto meu filho estivesse nascendo ou que eu demoraria horas, muitas horas, pra poder pegar ele no colo. Ninguém me contou tanta coisa!
Ninguém me disse que a amamentação prazerosa das campanhas pró amamentação é como bilhete premiado da Mega da Virada, aquele que você sabe que alguém ganha, mas nunca conheceu um sujeito de sorte pra tanto. Ninguém meeeesmo me contou que amamentar era difícil. Ninguém comentou que no começo machucava pra caramba e que o leite tinha que ser ofertado sempre que solicitado pelo bebê. Ninguém. Nem o boletim semanal, nem a médica, nem os programas de televisão, nem os sites de maternidade propaganda de margarina.

Esqueceram de me dizer que ser mãe era difícil pra cacete, que eu ia me desesperar, chorar, desencontrar, surpreender (tudo ao mesmo tempo). Esqueceram de me falar que o primeiro mês do bebê é um teste de sanidade, que dá vontade de jogar a criança pela janela, que dá vontade de jogar a própria mãe, a sogra, o marido, que dá vontade de se jogar pela janela. Eu apanhei muito pela minha falta de conhecimento. Apanhei por não ter quem me dissesse como as coisas seriam. Sofri pela falta de sinceridade do mundo que vende a maternidade como algo encantador, belo, perfeito. Penei por não terem me dito que parto normal era anormal, que mulher feliz amamentando só se fosse criança calejada de peito. Que fique claro, não tiro minha culpa de não ter procurado informação por conta própria, mas esse floreio em torno da maternidade impacta demais o lance real. Impacta a ponto de criar mães frustradas que se perguntam o tempo todo “o problema sou eu?”. Não mãe, não é você. Ser mãe é difícil. Muito difícil. É pra você, pra mim, pra qualquer uma. Pena que não te contaram antes. Pena que não me contaram antes.