Você está lá, grávida. Pode ter descoberto há pouco tempo, pode
já estar com aquela pesada barriga de seis meses, ou ainda pode estar contando
os dias no calendário “40 semanas, 40 semanas e dois dias...”, apenas
aguardando a boa vontade de seu rebento.
Durante esses quase dez meses de gestação, muita coisa passou
pela sua cabeça: garanto que foi assim com você. Você floreia a vida, o mundo.
Imagina como será sua pequena cria, como será a risada, a voz, o cabelo, os
olhos, como serão os primeiros anos de vida... Imagina tudo.
Essa vontade de saber o futuro, essa ansiedade, é completamente
normal, aposto que toda mulher grávida já passou por isso. Isso é mais normal
ainda quando se é uma mãe de primeira viagem. Entre sonhos e devaneios, tudo na
sua cabeça é perfeito: a gestação, o parto, a amamentação, o pós-parto... Os
dias e as noites.
Mas posso te contar uma coisa? Sem querer desanimar alguém,
realidade e imaginação são coisas bastante distintas. Quer saber um assunto
que, pelo menos pra mim, não foi nada como eu imaginei – pelo menos não no
começo? AMAMENTAÇÃO. Pois é.
Quando eu estava grávida tinha uma ideia sobre amamentar. Pra
mim era tudo tão lindo e maravilhoso, qual era o problema? Era colocar o bebê
no peito e pronto. Assim como eu via na tevê ou ao meu redor.
Minha antena "ligou" quando a equipe que contratei
para acompanhar meu parto domiciliar – sim, meu bebê nasceu em casa, mas isso é
assunto para outro post - me disse que
eu assistiria a uma aula sobre amamentação. Oi? Aula? Aula pra quê?
Ali meus olhos abriram. Mas não muito. Foquei tanto no parto que
esqueci disso. Pra mim, amamentar seria "bico" (com perdão do
trocadilho). A ficha começou a cair quando na primeira noite minha bebê chorou.
A noite toda. Até cansar. E você não pode esquecer que ela nasceu em casa,
então não tinha médico, nem enfermeira, nem mãe. Era eu, o pai e ela. Só.
Cada vez que ela tentava pegar o peito, a boca escorregava.
Tentava de novo e nada. Eu e marido tentamos tirar o colostro "na
raça" e dar na colherinha pra ela. Não sei se deu certo ou se ela só
cansou e pronto. Calou e dormiu.
No dia seguinte, minha obstetriz e minha doula vieram em casa,
viram como estava a "pega" e falaram pra eu ter paciência – descobri,
na marra, que a paciência é a grande chave para quem se torna pai ou mãe.
No terceiro dia, meu leite "desceu". Fiquei feliz
principalmente porque não tive "reação": não empedrou, não tive
febre, nada nada. Bom, agora vai rolar! Que nada...
A enfermeira veio em casa e viu que eu fazia tudo certo, mas a
falta de bico fazia com que eu tivesse que ter paciência extra. Cedi ao bico de
silicone! Com ele, minha pequena começou a mamar... Que maravilha! Porém... Que
dor era aquela, meu Deus? Cada vez que ela mamava, era uma dor insuportável. A
vontade era de gritar, as lágrimas corriam compulsivamente. A sensação era de
que aquilo NUNCA iria passar. Nunca. Cadê o prazer? Cadê o mundo de margarina em
que toda mulher parece estar quando amamenta?
Eu me sentia um lixo de mãe! Um lixo! Não conseguia amamentar,
não conseguia pensar em prazer, aquilo parecia um fardo! Cheguei a ignorar
alguns apelos de minha filha – me sinto um monstro relembrando isso, mas é
verdade -, me convencendo de que ela não queria mamar, deveria ser outra coisa,
não fome. Sei que quando nasce uma mãe, nasce com ela a sacolinha da culpa, mas
não achava que a minha apareceria tão cedo!
Nas minhas andanças pelo mundo da Internet, comecei a me
conectar ao mundo da amamentação. Numa das pesquisas, descobri que o bico de
silicone pode causar desmame precoce. Essa não! Tanto esforço pra rolar desmame?
Comecei a tentar tirar o bico artificial. Era muito difícil! Dava uma mamada
com, outra sem, uma com, duas sem, até que consegui deixar o bico de lado. Mas
a dor, ah, a dor, essa não me abandonava!
Além disso, descobri também a hiperlactação. Que ironia do
destino, meu peito jorrava de leite – a pequena engasgava em TODA mamada - e
pra mim parecia tudo inútil. Pra que tanto leite? Que desperdício!
Um dia resolvi desabafar com uma amiga e vi que eu não era um
ser de outro mundo. Muita gente passa por isso. Então eu passei a postar minhas
dificuldades no Facebook e recebia muitas palavras de incentivo e depoimentos.
Foi quando comecei a ver que pra muita gente o mundo de margarina não existe.
Eu tive informação, orientação, persistência, e mesmo assim levei
quase 70 dias para me libertar da dor. Sim, depois de 70 dias eu consegui
amamentar um dia inteiro sem sentir dor. Amor e dor deixaram de ser
companheiros.
Meu bico não rachou, não sangrou, meu leite não empedrou, não
tive alergia, nada disso. E, ainda assim, foram dias difíceis, em que a vontade
de desistir volta e meia dava as caras.
Esta semana, minha pequena cria completou dez meses. Dez meses
de amor puro e sincero, de dedicação quase exclusiva, dez meses de amamentação.
Hoje esse capítulo tornou-se muito mais fácil, o prazer chegou, a dor passou e
me sinto bem em poder amamentar.
A conclusão dessa história não é tão cor-de-rosa. Sabemos
que os benefícios da amamentação são vistos a curto, a médio e a longo prazo.
Amamentar é alimento, mas também é aconchego, é carinho, é pele a pele.
Amamentar é se conectar. Reafirmo que sim, o aleitamento materno é extremamente
importante, e que é fundamental se entregar, insistir, tentar não desistir
diante dos percalços... porém confesso que o fardo é pesado!
São dias e dias de tentativa e erro, de vontade de jogar
tudo pro alto. Há mulheres que conseguem – algumas até de maneira fácil e
natural - e outras não. Então umas são melhores mães que as outras por isso?
Definitivamente não! Assim como via de parto não é "mãezímetro", não
consigo ver a amamentação como meio de se avaliar a maternagem de alguém.
Sei de gente que vai até o seu limite - físico e mental - e não
consegue. Não julgo. Mesmo. Só Deus sabe o que passou pela minha cabeça nesse
tempo. Pode até ser
que antes de amamentar eu possa ter tido algum pensamento preconceituoso, mas
após a experiência não tenho nem como pensar isso. Creio do fundo do coração
que a grande maioria das mulheres gostaria de poder amamentar em livre demanda,
mas se não é possível, que façam o que for melhor sem carregar a culpa consigo.
Mães – tentantes, gestantes, recém-paridas ou não -, não
idealizem nada! Enfrentem as dificuldades sem medo e vergonha! A maternidade é
um desafio diário, muito mais do que pintam pra você. Mas é sensacional ver que
conseguimos superar os desafios a nosso modo, cada um com seus valores e
ideais.
Para concluir, ficam algumas dicas ou lembretes ou reflexões, o
que vocês quiserem:
- A Organização Mundial de Saúde recomenda que toda mulher
amamente exclusivamente até seis meses e continue amamentando até dois anos ou
mais, deixando ocorrer o desmame natural. Entretanto, a licença gestante no
Brasil é de apenas quatro meses. Que coisa, não?
- É comprovado que o leite materno não fica fraco depois de um
tempo e que a amamentação prolongada traz benefícios;
- Existem serviços especializados para ajudar a mulher que quer
amamentar: há os bancos de leite que, geralmente, ficam nos hospitais públicos
(na Baixada Santista há um dentro do Hospital Guilherme Álvaro) e há as
consultoras de amamentação, que vão em casa ajudar as mulheres com dificuldade
(na Baixada há o “Anjos de Leite”). Penso que vale a pena entrar em contato com
algum desses serviços para ajudar;
- Você, querido leitor, que tem em casa, na família, na rede de
amigos, uma mulher que amamenta – principalmente na fase inicial: AJUDE-A! Toda
mulher precisa de uma rede de apoio a seu lado para que possa amamentar
livremente! Não a recrimine, não dê palpites desnecessários, não use de
achismos; apenas ajude-a. Ela precisa estar bem, feliz, saudável para fazer a
tarefa com louvor. Ofereça suporte físico e mental, ofereça um ombro amigo, um
suco com bolachas, não a desampare. Uma rede de apoio confiável fará toda a
diferença na vida dessa mulher e desse bebê, tenha certeza disso.
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