domingo, 25 de janeiro de 2015

O dia depois de amanhã


Dia desses, zapeando alguns canais na televisão, me deparei com a chamada do filme “O dia depois de amanhã”, aquele em que uma cacetada de gente luta pra sobreviver a inúmeras catástrofes naturais que acontecem quase que ao mesmo tempo (furação, tsunami, tornado, vulcão, nevasca, calor santista, tudo junto...). Vendo aquela chamada com várias pessoas correndo e gritando de desespero, lembrei dos três primeiros meses de vida do Pedro. 
Não que hoje minha vida de mãe seja fácil, anda bem longe disso, na verdade, mas os meses iniciais dessa aventura-drama-ação-mundo pós apocalíptico foram impossíveis! I-m-p-o-s-s-í-v-e-i-s!!!
Pedro nasceu por uma cesárea, e apesar da operação ter corrido conforme o esperado, o pós operatório foi um tanto complicado. Nos primeiros dias, ainda no hospital, tive muita dificuldade de locomoção por causa das dores no corpo. Fui medicada de acordo com o protocolo do esquema todo, mas os remédios não foram suficientes pra fazer a dor desaparecer. Evitei andar curvada,e ainda assim os pontos eram um incômodo sem fim. Além deles, sofri de quase morrer com os benditos (ou seriam malditos?) gases. Uma enfermeira gente fina avisou “Mããããe, evita falar muito por causa dos gases. Se você tiver problemas com eles, vai sentir muita dor”, mas quem acaba de parir e consegue ficar muda??? Pois é, eu não consegui. Senti tanta, mas tanta dor que valeu pelo parto normal que eu pulei fora de tentar.
Já em casa, o incômodo e desconforto do corpo pós-operado me acompanharam por 15 dias, tempo exato em que fiquei com os pontos. Nessa época, contei bastante com a ajuda das avós e do pai do Pedro, eram eles que pegavam e davam banho no menino pra mim. Os primeiros dias por aqui foram recheados de cuidados coletivos, tive a presença constante da minha família pra me auxiliar com tudo, e dizer “não, obrigada” foi bem difícil. Como antes do pequeno vivíamos apenas eu e marido, ter a casa cheia de gente era bom e ruim. Eu ficava sem jeito de ir dormir, me irritava com o barulho e a bagunça. Eu gostava e desgostava da ajuda, o cansaço da adaptação me fazia ter bem menos paciência do que o normal, e por muitas vezes tive uma vontade imensa de mandar todo mundo pra sua respectiva casa (mas não mandei, valeu gente pela paciência, Love you all!).
Além da complexidade na adaptação à nova vida de cansaço e medo, outro lance penoso por aqui foi a amamentação. Eu não tinha bico, então usava o bico de silicone para me ajudar. Eu sentia muita, mas muita dor para amamentar! Ele mamava e eu chorava. Além da dor, eu tinha uma dificuldade enorme em entender quando o leite era suficiente, então deixava ou demais, ou de menos no peito. Cheguei a contratar uma profissional para me auxiliar nessa questão, mas eu não conseguia fazer a tal da pega, e isso me frustrava muito. Minha novela pra amamentar foi tão dramática que juro fazer outro post só pra ela...rs.
Amamentei o Pedro por pouco tempo, e por uma eternidade carreguei uma culpa absurda pela minha escolha. Achava que se meu filho ficasse doente a responsabilidade seria minha, então evitava ao máximo sair com ele ou receber visitas. A falta de vida social era terrível. Ficávamos o dia todo juntos em casa, quando ele dormia, eu fazia alguma coisa, quando eu resolvia dormir junto, ele acordava. Misturado a isso tudo, a fase de cólicas dele foi interminável. Acho que meu filho sentia cólica por ele e por mais umas cinco crianças, porque a coisa era teeeensa! Manter a sanidade nas noites em claro regadas a muito choro foi difícil, praticamente aquelas provas do “No limite” que você tem certeza que ninguém vai sobreviver. Tentamos de tudo: banho de balde, Luftal, deitar de bruços, ninar e fazer “ssshhhh” no ouvido, reza brava, colocar no carrinho e passear pela casa, jogar pro alto e chorar junto.  O que acabou dando certo por aqui foi uma santa bolsinha térmica que ele ganhou de presente e sou muito grata. Amo tanto aquela bolsinha que tenho vontade de enquadrar. Ainda assim, foram muitas, mas muitas noites desesperadoras, para nós e para ele. Meses depois descobrimos que ele tinha intolerância a lactose, e introduzir a alimentação correta mudou bastante as coisas.
Os primeiros meses de vida do meu filho foram complicados, por tudo. Era tudo novo, pra ele e pra gente. Era tudo muito assustador, pra ele e pra gente também. Eu sempre fui muito cagona com as coisas, e essa característica peculiar atravancava o que já era naturalmente punk. Eu tinha medo de tudo: dele engasgar, de dar muito ou pouco leite, de colocar ele para dormir de barriga pra cima e de colocar para dormir de lado. Tinha medo quando ele ficava quieto demais ou quando chorava muito. Foram inúmeras as noites em que acordei na madrugada pra me certificar que ele estava respirando.


Nas muitas visitas à pediatra eu sempre escutava das mães de crianças mais velhas se as coisas andavam difíceis. Andavam, e muito! Ao final de cada relato meu embebido em drama, lágrimas e enormes olheiras, minhas companheiras de novela respondiam “calma que passa!”.  Verdade, passa. A cólica acaba, a amamentação entra nos eixos, as noites se tornam mais longas e com o tempo, aprendemos a identificar as necessidades e anseios das nossas crias.  Os medos mudam, o cansaço permanece e cada novidade é um desafio. É bonito de saber isso tudo, mas são coisas gente só descobre com o tempo. Pensando naquela gente do filme, correndo e gritando, luta pela sobrevivência mesmo é saber se, no dia depois de amanhã, vai ter acesso de cólica, peito rachado ou noite sem dormir. 

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