Dia
desses, zapeando alguns canais na televisão, me deparei com a chamada do filme “O
dia depois de amanhã”, aquele em que uma cacetada de gente luta pra sobreviver
a inúmeras catástrofes naturais que acontecem quase que ao mesmo tempo (furação,
tsunami, tornado, vulcão, nevasca, calor santista, tudo junto...). Vendo aquela
chamada com várias pessoas correndo e gritando de desespero, lembrei dos três
primeiros meses de vida do Pedro. Não que hoje minha vida de mãe seja fácil, anda bem longe disso, na verdade, mas os meses iniciais dessa aventura-drama-ação-mundo pós apocalíptico foram impossíveis! I-m-p-o-s-s-í-v-e-i-s!!!
Pedro
nasceu por uma cesárea, e apesar da operação ter corrido conforme o esperado, o
pós operatório foi um tanto complicado. Nos primeiros dias, ainda no hospital,
tive muita dificuldade de locomoção por causa das dores no corpo. Fui medicada de
acordo com o protocolo do esquema todo, mas os remédios não foram suficientes
pra fazer a dor desaparecer. Evitei andar curvada,e ainda assim os pontos eram
um incômodo sem fim. Além deles, sofri de quase morrer com os benditos (ou
seriam malditos?) gases. Uma enfermeira gente fina avisou “Mããããe, evita falar
muito por causa dos gases. Se você tiver problemas com eles, vai sentir muita
dor”, mas quem acaba de parir e consegue ficar muda??? Pois é, eu não consegui.
Senti tanta, mas tanta dor que valeu pelo parto normal que eu pulei fora de tentar.
Já em
casa, o incômodo e desconforto do corpo pós-operado me acompanharam por 15
dias, tempo exato em que fiquei com os pontos. Nessa época, contei bastante com
a ajuda das avós e do pai do Pedro, eram eles que pegavam e davam banho no
menino pra mim. Os primeiros dias por aqui foram recheados de cuidados
coletivos, tive a presença constante da minha família pra me auxiliar com tudo,
e dizer “não, obrigada” foi bem difícil. Como antes do pequeno vivíamos apenas
eu e marido, ter a casa cheia de gente era bom e ruim. Eu ficava sem jeito de
ir dormir, me irritava com o barulho e a bagunça. Eu gostava e desgostava da
ajuda, o cansaço da adaptação me fazia ter bem menos paciência do que o normal,
e por muitas vezes tive uma vontade imensa de mandar todo mundo pra sua
respectiva casa (mas não mandei, valeu gente pela paciência, Love you all!).
Além da
complexidade na adaptação à nova vida de cansaço e medo, outro lance penoso por
aqui foi a amamentação. Eu não tinha bico, então usava o bico de silicone para
me ajudar. Eu sentia muita, mas muita dor para amamentar! Ele mamava e eu
chorava. Além da dor, eu tinha uma dificuldade enorme em entender quando o
leite era suficiente, então deixava ou demais, ou de menos no peito. Cheguei a
contratar uma profissional para me auxiliar nessa questão, mas eu não conseguia
fazer a tal da pega, e isso me frustrava muito. Minha novela pra amamentar foi
tão dramática que juro fazer outro post só pra ela...rs.
Amamentei
o Pedro por pouco tempo, e por uma eternidade carreguei uma culpa absurda pela
minha escolha. Achava que se meu filho ficasse doente a responsabilidade seria
minha, então evitava ao máximo sair com ele ou receber visitas. A falta de vida
social era terrível. Ficávamos o dia todo juntos em casa, quando ele dormia, eu
fazia alguma coisa, quando eu resolvia dormir junto, ele acordava. Misturado a
isso tudo, a fase de cólicas dele foi interminável. Acho que meu filho sentia
cólica por ele e por mais umas cinco crianças, porque a coisa era teeeensa! Manter
a sanidade nas noites em claro regadas a muito choro foi difícil, praticamente
aquelas provas do “No limite” que você tem certeza que ninguém vai sobreviver. Tentamos
de tudo: banho de balde, Luftal, deitar de bruços, ninar e fazer “ssshhhh” no
ouvido, reza brava, colocar no carrinho e passear pela casa, jogar pro alto e chorar
junto. O que acabou dando certo por aqui
foi uma santa bolsinha térmica que ele ganhou de presente e sou muito grata. Amo
tanto aquela bolsinha que tenho vontade de enquadrar. Ainda assim, foram
muitas, mas muitas noites desesperadoras, para nós e para ele. Meses depois descobrimos
que ele tinha intolerância a lactose, e introduzir a alimentação correta mudou bastante
as coisas.
Os
primeiros meses de vida do meu filho foram complicados, por tudo. Era tudo
novo, pra ele e pra gente. Era tudo muito assustador, pra ele e pra gente
também. Eu sempre fui muito cagona com as coisas, e essa característica
peculiar atravancava o que já era naturalmente punk. Eu tinha medo de tudo:
dele engasgar, de dar muito ou pouco leite, de colocar ele para dormir de barriga
pra cima e de colocar para dormir de lado. Tinha medo quando ele ficava quieto demais
ou quando chorava muito. Foram inúmeras as noites em que acordei na madrugada
pra me certificar que ele estava respirando.
Nas muitas
visitas à pediatra eu sempre escutava das mães de crianças mais velhas se as
coisas andavam difíceis. Andavam, e muito! Ao final de cada relato meu embebido
em drama, lágrimas e enormes olheiras, minhas companheiras de novela respondiam
“calma que passa!”. Verdade, passa. A
cólica acaba, a amamentação entra nos eixos, as noites se tornam mais longas e
com o tempo, aprendemos a identificar as necessidades e anseios das nossas
crias. Os medos mudam, o cansaço
permanece e cada novidade é um desafio. É bonito de saber isso tudo, mas são
coisas gente só descobre com o tempo. Pensando naquela gente do filme, correndo
e gritando, luta pela sobrevivência mesmo é saber se, no dia depois de amanhã,
vai ter acesso de cólica, peito rachado ou noite sem dormir.
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